telefonia celular
A tecnologia sempre

nos parece algo relacionado
apenas ao bem-estar, à modernidade
e à simplificação
de atos de nossa vida social.
No entanto, a relação entre
homens e “máquinas”, ao longo
dos anos, pode ser geradora
de efeitos biológicos nocivos, nem
sempre conhecidos e dimensionados
antes de sua utilização. Objeto de
estudo científico, a telefonia celular por
expor o ser humano à radiação, produz
uma gama de efeitos biológicos que vêm
sendo alvo de pesquisas nacionais e internacionais.
Esses estudos pretendem alertar os
usuários e as autoridades reguladoras do setor
de telecomunicações para os possíveis riscos que
a sua utilização em demasia pode acarretar à saúde
pública.
É inquestionável, no entanto, que as comunicações
móveis celulares marcaram profundamente
o comportamento social no último século e
incorporaram-se de modo definitivo ao dia-a-dia de
milhões de pessoas no mundo inteiro, que passaram
a ficar imersas em ambientes cada vez mais servidos
por radiações eletromagnéticas. Eventualmente, esse
tipo de radiação pode causar efeitos biológicos. As
chamadas radiações não-ionizantes – ou seja, aquelas
geradas por emissões de rádio, TV, forno de microondas
e pelos celulares – podem provocar efeitos,
classificados como térmicos ou não-térmicos. Os térartigo
BETÂNIA BUSSINGER
Mestra em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade Federal
Fluminense (UFF)
Foto: Sherrie Smith
Rede câncer 13
micos surgem diretamente do aquecimento dos tecidos,
como resultado da absorção de parte da energia
transportada pela onda eletromagnética. Já os nãotérmicos
são resultado da interação direta de campos
eletromagnéticos com as moléculas que formam o
tecido sem estar relacionados com o calor, podendo
também gerar danos no organismo.
Atualmente, se considerados apenas os efeitos
térmicos, os níveis de radiação aos quais as pessoas
podem ser submetidas são recomendados pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) e seguidos no
Brasil, conforme orientação da Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel). A agência, respeitando
as normas internacionais ICNIRP (International Commission
on Nonionizing Radiation Protection), por
meio de regulamento, estabelece os limites para a
exposição humana a campos elétricos, magnéticos
e eletromagnéticos, na faixa de radiofreqüência entre
9 kHz e 300 GHz. Ou seja, a Anatel regulamenta
valores-limite considerados seguros para a exposição
humana dentro dessa faixa de freqüência. Vários países
e algumas cidades brasileiras, como Porto Alegre
e Campinas, no entanto, já fixam níveis de radiação
abaixo daqueles preconizados pela OMS, obedecendo
ao “Princípio da Precaução” – critério aplicado em
circunstâncias de risco em potencial em que há necessidade
de tomar atitudes sem esperar resultados
de pesquisas científicas.
vivos, quando não adequadamente utilizada. A radiação
não-ionizante provoca efeito cumulativo, variável
de acordo com o período de exposição e com a reação
de cada organismo.
Pesquisas nacionais e internacionais realizadas
em mais de 42 países, ao longo de dez anos, revelam
que, mesmo potências mais baixas, ao penetrarem
em nossos cérebros, podem prejudicar o organismo.
Isso já foi demonstrado, repetidas vezes, em experiências
com cobaias, com análises in vitro e por meio
de pesquisas epidemiológicas. Em 60% dos estudos,
foi evidenciado efeito biológico. Essas pesquisas, entretanto,
devem durar mais que dez anos, tendo em
vista os longos períodos de latência dos tumores cerebrais,
efeito biológico mais registrado nos estudos
até o momento. Os resultados mostram um aumento
de risco de desenvolvimento de diversos tipos de tumor
cerebral (como gliomas, astrocitromas, neurinomas
acústicos, meningiomas etc.), entre os usuários
mais constantes. Foram verificados ainda vários danos
também à pele do usuário e ao ouvido – sempre
do lado em que se utiliza mais o celular.
Mas o que seria uma exposição prolongada ao
celular? Considera-se exposição prolongada de duas
a três mil horas de uso, correspondendo a cerca de
meia a uma hora por dia, durante seis ou mais anos,
coincidindo com o lado da cabeça em que os celulares
são usualmente operados. Adiciona-se agora a
isso uma enorme utilização de sistemas sem fio (tipo
wireless, como WiFi, WiMax, Bluetooth etc.), que são
certamente em baixo nível, mas, com longos tempos
de exposição, também aumentam substancialmente
os riscos à saúde. Lamentavelmente, estamos todos
expostos às conseqüências de uma tecnologia largamente
utilizada, antes mesmo de ter provado ser
inócua à saúde.
Faz-se prudente, portanto, um alerta para o fato
de os indivíduos que utilizam celulares, com freqüência
excedente às consideradas aceitáveis, serem
mais propensos a sofrer efeitos biológicos causados
pela radiação não-ionizante das comunicações
móveis celulares. A proposta desse debate é, como
acontece em vários países da Europa, estimular
órgãos reguladores do serviço no Brasil a reduzir,
por conta própria, os valores-limite para exposição
à radiação, obedecendo ao chamado “princípio da
precaução”. Outro ponto importante dessa discussão
é informar à população os riscos e os cuidados
necessários à correta utilização dos aparelhos celulares
para que danos à saúde sejam evitados em um
futuro próximo.
“A telefonia celular, por expor
o ser humano à radiação,
produz uma gama de efeitos
biológicos que vêm sendo
alvo de pesquisas nacionais
e internacionais.”
Os efeitos biológicos são respostas a um estímulo
específico, como a exposição do organismo,
por longo período de tempo, às radiações provenientes
das comunicações móveis celulares. Os estímulos
podem gerar mudanças por estressar o organismo,
apesar de o corpo humano possuir seus mecanismos
regulatórios para enfrentar esses tipos de agressão.
Assim, a radiação não é apenas fonte de energia inócua,
podendo ser uma verdadeira ameaça aos seres
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